Psicologia Hospitalar e Psicologia Clínica: Semelhanças e Diferenças na prática

A clínica psicológica se originou a partir do modelo médico. Os primórdios do termo “psicologia clínica” datam do final do século XIX. Com a Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, sancionada pelo Presidente da República João Belchior Goulart, foi oficializado o exercício da Psicologia no Brasil.

A Psicologia Hospitalar, enquanto uma especialidade – que se refere a uma área específica de conhecimento, não se resumindo a uma adaptação ou a uma extensão da Psicologia Clínica -, foi instituída pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) a partir da resolução n. 14/00, de 20 de dezembro de 2000. 

A Psicologia Hospitalar se difere e também se aproxima da Psicologia Clínica em diferentes aspectos:

  • Ambiente – Setting terapêutico

No hospital, o corpo predomina e muitas vezes traz limitações que interferem no atendimento. O atendimento psicológico acontece principalmente à beira do leito em que a pessoa está internada, de forma que a privacidade nem sempre pode ser garantida, especialmente nos casos em que existe mais de um leito em um mesmo quarto. Muitos fatores podem ser responsáveis por interrupções ao longo do atendimento, dentre os quais estão a necessidade de realização de procedimentos, exames ou até mesmo a limpeza do local.

No consultório, o ambiente psíquico predomina e o espaço físico, em geral, é mais acolhedor. Este espaço é mais parecido com uma sala de casa, com um conforto que convida ao diálogo. A consulta já prevê um período pré-estabelecido para a sessão, que é mais facilmente respeitado. 

Em ambos os casos, dentro das possibilidades, busca-se estabelecer um ambiente protegido para que o paciente se expresse. Mesmo que o nosso próprio corpo precise ser a divisória entre o paciente e os demais. Cuida-se com o tom de voz e busca-se com a postura profissional, propiciar o melhor ambiente possível para a expressão emocional.

Independente do ambiente, temos que tirar o foco apenas da doença e olhar para a pessoa como um todo.

  • Trabalho em equipe

O trabalho em equipe é mais exigido no hospital, mas também é essencial no consultório.

No hospital, há um ambiente físico que é compartilhado e pacientes que estão sendo atendidos por diferentes profissionais. Isso pode facilitar o encontro e o diálogo entre as diferentes áreas, mas isso por si só não é suficiente para garantir uma atuação multidisciplinar.

Até porque no hospital também há o convite à especialização, em que cada um se concentra em uma parte específica do problema em questão (da doença) e é difícil manter o olhar no todo envolvido (no paciente).

Penso que o papel da Psicologia nesse ambiente é justamente o de manter o foco sobre a pessoa como um todo. Tentar contribuir para a integração na prática, utilizar a nossa habilidade de comunicação e nos relacionamentos para ajudar a ampliar o olhar das pessoas (profissionais, pacientes e familiares) para as diferentes necessidades/demandas envolvidas na situação.

Mas sem dúvida, no hospital já trabalhamos de forma multiprofissional e estamos percorrendo o caminho para uma prática verdadeiramente interdisciplinar. 

No consultório, embora seja esperado que o profissional da Psicologia esteja atento ao indivíduo como um todo, incluindo aspectos biológicos, sociais, culturais, espirituais. Infelizmente, ainda muitos profissionais se esquecem de abordar nas entrevistas iniciais questões como: Você faz acompanhamento com outros profissionais? Você faz uso de alguma medicação de uso contínuo? Você tem alguma doença ou já precisou de algum tratamento antes? Você tem uma religião? Como é a sua relação com a comunidade? Sua condição de vida garante que suas necessidades básicas sejam atendidas? Você tem amigos? Como é sua relação com o trabalho?

Mesmo no consultório, assim como no hospital, o profissional fica concentrado apenas na queixa principal do paciente. Assim como no hospital, às vezes só se olha para o corpo, há que se ter cuidado para no consultório não olhar só para o psicológico.

O problema não é ter foco em uma das áreas, o problema é desconsiderar as demais ou considerá-las de menor importância. 

Em ambos os locais, o profissional precisa exercitar uma postura ativa de busca pelo encontro com as outras disciplinas, visando ampliar a compreensão acerca do que está acontecendo com o paciente e como ajudá-lo.

  • Identificação da demanda e Busca pelo atendimento

No consultório, o reconhecimento e o primeiro passo já foi dado pelo paciente. É a pessoa quem procura o profissional no momento em que necessita de ajuda, e é ela quem decide o momento de ir embora.

O cliente vem ao consultório com sua história de vida, suas necessidades e expectativas e, nesse caso, ele já ouviu falar da Psicologia e acreditou que essa especialidade pudesse auxiliá-lo de alguma forma a sentir-se melhor emocionalmente ou ajudá-lo a resolver alguma questão específica.

Em um hospital geral, a pessoa busca a instituição, na maioria das vezes, procurando ajuda para se sentir melhor no âmbito físico. Algo não está funcionando bem em seu corpo e ela necessita de ajuda médica. Mas, quando a pessoa vai ao hospital em busca de um tratamento para sua doença, além do médico, encontra também profissionais de outras áreas da saúde, como por exemplo, das áreas de Enfermagem, Nutrição, Farmácia, Serviço Social e Psicologia

Em geral no hospital, a identificação da demanda psicológica é feita pelos profissionais e é o próprio psicólogo que se coloca a disposição e oferece o serviço ao paciente. Durante o atendimento, é avaliada se a demanda por parte do paciente existe realmente.

No hospital, é possível atender pacientes que nunca tinham pensado na possibilidade de realizarem um atendimento psicológico e sequer tenha clareza do papel do psicólogo nesse contexto ou em qualquer outro.

Apesar das indicações para o atendimento psicológico no hospital, caso a intervenção psicológica não considere o direito da pessoa de ter informação e sua autonomia, esta intervenção pode se tornar mais um procedimento invasivo, dentre tantos outros já realizados no ambiente hospitalar, e contribuir para a despersonalização do paciente. 

No hospital, muitas vezes, a vontade da pessoa é ignorada, sua intimidade é invadida e seus relacionamentos interrompidos. A intervenção psicológica não pode ser mais um elemento que desconsidere a individualidade. Mas ela tem potencial, se for conduzida respeitando os limites e possibilidades da pessoa, de ser um elemento facilitador no enfrentamento dessa vivência.

Mas mesmo no consultório, às vezes a pessoa vai com uma expectativa irreal do que o acompanhamento psicológico pode fazer e qual é a parte que precisará ser feita por ela. Esse ajuste de expectativas e co-responsabilização do paciente precisa ser conduzida pelo profissional, independentemente do contexto.

  • Vínculo e intervenções

Em ambos os locais, busca-se estabelecer inicialmente um vínculo de confiança.

Mas no consultório, quando o paciente realmente entra em psicoterapia e vai a uma série de sessões, acaba sendo possível utilizar a própria relação terapêutica como foco da intervenção, já que a forma como o paciente se relaciona com o profissional tem semelhanças com a forma como ele se relaciona com os outros e com o mundo. 

Além disso, como a relação tende a ficar mais sólida com o passar do tempo, em psicoterapia é possível e essencial que o profissional fruste, de forma habilidosa, o paciente. Mostrando a ele como ele atua e qual o impacto disso nas relações.

No hospital, como os contatos são reduzidos, a relação ainda está sendo construída e o momento pode ser considerado de crise – já que há um desequilíbrio e uma ruptura significativos na vida do paciente ao internar no hospital. 

Nesse caso, há um predomínio das intervenções de apoio e de psicoeducação. Não significa que não são feitas intervenções visando a ampliação da consciência e a frustração do paciente (por ex. questionamento das defesas, apontamentos em relação a sua forma e consequências). Apenas, que elas precisam ser realizadas com mais cautela, observada a relação de confiança estabelecida.

Referências complementares:

REMEN, Rachel Naomi. O paciente como ser humano. Trad. Denise Bolanho. São Paulo: Summus, 1993.

JULIANO, Jean Clarck. A vida, o tempo, a psicoterapia. São Paulo: Summus, 2010.

BRUSCATO, W L; AMORIM, S F; HABERKORN, A; BRUSCATO, W L; BENEDETTI, C; LOPES, S R A (Orgs.). A prática da Psicologia Hospitalar na Santa Casa de São Paulo: novas páginas em uma antiga história. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

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Psi. Maria Emília

Psi. Maria Emília

Psicóloga graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestalt-terapia pelo Comunidade Gestáltica. Especialista em Saúde pela Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (Alta Complexidade HU/UFSC). Mestrado Profissional pela UFSC. Atua como psicóloga hospitalar e clínica.  Além de professora, preceptora de Residência e supervisora de estagiários e psicólogos já formados.​
Psi. Maria Emília

Psi. Maria Emília

Psicóloga graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestalt-terapia pelo Comunidade Gestáltica. Especialista em Saúde pela Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (Alta Complexidade HU/UFSC). Mestrado Profissional pela UFSC. Atua como psicóloga hospitalar e clínica.  Além de professora, preceptora de Residência e supervisora de estagiários e psicólogos já formados.​

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