Quando e como o psicólogo deve encaminhar para o psiquiatra?

Eu escuto de muitos psicólogos em supervisão essa dificuldade em saber o momento certo de fazer o encaminhamento e em abordar essa questão com o paciente.

Não tem fórmula mágica, mas tem 4 pontos que você deve considerar para realizar esse encaminhamento da forma adequada.

1. Os sintomas, as reações emocionais, o sofrimento que a pessoa apresenta parecem uma reação de adaptação à situação que ela está vivendo ou não?

Às vezes sofrimento psíquico e transtorno mental são utilizados como sinônimos. Mas nem todo sofrimento psíquico pode ser considerado um transtorno mental e nem todo transtorno mental tem a vivência de sofrimento psíquico. A diferenciação dos conceitos ajuda a definir qual o tratamento mais adequado em cada caso.

Sofrimento psíquico

Sofrimento psíquico se refere à dor ou processo de sofrer associado à esfera psicológica, emocional, comportamental. Em muitas situações o sofrimento é uma reação natural e esperada frente a algo que não vai bem ou quando nossas necessidades não são atendidas.

Este sofrimento pode ser expresso em alterações no humor, no comportamento e no corpo. São exemplos de manifestações possíveis: choro, cansaço, isolamento, desânimo, raiva, frustração, desesperança, ansiedade, alteração no apetite ou sono, falta de concentração.

Os quadros reativos são aqueles que apresentam alguns sintomas considerados psicopatológicos, mas são aceitáveis dentro do contexto.

Exemplos: Tristeza e perda do sentido da vida após separação; ansiedade e insônia diante de um evento importante; choro compulsivo e agitação após morte de familiar.

Nos casos em que o sofrimento é uma reação ao contexto e não fecha os critérios para um transtorno mental, muitas vezes a própria pessoa é capaz de se reorganizar com o tempo e com os recursos internos e ambientais que possui.

É possível que o nível de sofrimento seja atenuado a partir de modificações realizadas no ambiente/contexto ou modificações que a pessoa faça em sua forma de pensar ou lidar com a situação. Por isso, a psicoterapia pode ser o principal recurso terapêutico utilizado nesses casos. Mas outros recursos ou formas de terapia também podem ser buscadas de acordo com as preferências da pessoa.

Transtorno mental

Mas essas mesmas expressões de sofrimento podem ser sinais sugestivos de algum transtorno mental. Mas para que o diagnóstico de transtorno mental seja feito é necessária a avaliação de um conjunto específico de sintomas e dos prejuízos provocados em diferentes esferas da vida e relacionamentos. Nesses casos é recomendado um tratamento especializado em saúde mental, cujos profissionais de referência são os psicólogos e os psiquiatras.

A escolha pela psicoterapia e ou uso de psicofármacos depende da análise da duração, frequência e intensidade dos sintomas assim como do grau de ruptura, sofrimento e prejuízo vivenciados pelo pessoa.

Mas independentemente do plano de tratamento adotado sabe-se que o vínculo é uma importante estratégia terapêutica a ser utilizada.

2. Os sintomas, as reações emocionais, o sofrimento que a pessoa apresenta preenchem os critérios para algum transtorno mental?

Claro que a definição de psicopatologia e dos transtornos mentais podem ser baseadas em várias concepções teóricas. Ainda temos os manuais diagnósticos e podemos considerar existe um consenso em relação a alguns critérios para o diagnóstico de um transtorno mental, independentemente do diagnóstico em si.

Precisamos pensar nos transtornos mentais a partir do modelo biopsicossocial. Precisamos considerar que existe uma combinação entre predisposição genética, aspectos psicológicos e gatilhos ambientais. 

Por que eu digo isso?

Porque é nesse ponto que eu vejo que alguns psicólogos se confundem.

Às vezes, por considerar que a reação é “esperada” na situação, seguem investindo na reflexão sobre o ambiente, os aspectos psicológicos e sobre o que está ao alcance do paciente fazer sem considerar também os aspectos biológicos envolvidos. Já são observadas alterações biológicas importantes nos transtornos mentais, assim como o efeito positivo dos psicofármacos é comprovado para muitos diagnósticos.

O modelo biopsicossocial busca compreender o fenômeno a partir da articulação dos diferentes elementos e não privilegiando um em detrimento do outro.

Assim como não é adequado na maioria das vezes tratar um paciente exclusivamente com psicofármacos e esperar um bom resultado a longo prazo, por vezes a psicoterapia não é suficiente para realizar o tratamento de todos os pacientes que chegam até nós.

Critérios que precisam ser avaliados para o diagnóstico:

  1. Houve perda significativa de funcionalidade ou ruptura no padrão de funcionamento?
  2. Qual a duração, frequência e intensidade dos sintomas?
  3. Os sintomas provocam prejuízos significativos em diferentes áreas da vida, trabalho e relacionamentos?
  4. O quadro é inesperado ou não aceito dentro do contexto social?
  5. Os sintomas estão relacionados ou são secundários a outra doença orgânica?

Transtornos mentais exigem tratamento específico e especializado em saúde mental. Isso não significa que todos os casos precisarão ser medicados. Casos leves podem ser tratados com psicoterapia dependendo dos recursos internos e ambientais que a pessoa possui. Mas a avaliação em relação a indicação ou não do uso de psicofármacos deve ser por um profissional médico.

3. O que você sabe sobre a atuação do psiquiatra e dos psicofármacos?

Será que as dúvidas ou dificuldades em relação ao encaminhamento não podem ser um sinal de desconhecimento em relação a atuação do psiquiatra ou a ação dos psicofármacos?

Muitas vezes a importância do trabalho interdisciplinar, os componentes biológicos dos transtornos mentais e a ação e indicação dos psicofármacos não são abordados em profundidade durante a graduação em Psicologia.

Em alguns cursos, valoriza-se a discussão sobre a reforma psiquiátrica, a crítica ao modelo biomédico e à medicalização (super importantes por sinal), mas se desconsidera a importância atual da articulação entre psicólogos e psiquiatras para o sucesso dos tratamentos.

Outro ponto que pode dificultar esse processo de encaminhamento é que a abordagem dos diagnósticos é feita em uma perspectiva descritiva e explicativa a partir da psicologia. É claro que o nosso trabalho vai se basear nas teorias psicológicas, mas não pode se resumir a isso. Precisamos ter o olhar ampliado para ajudar o tratamento do nosso paciente.

A avaliação psiquiátrica e o uso de psicofármacos é essencial em muitos casos.

E nós não podemos deixar de abordar isso com nossos pacientes no momento certo e da melhor forma possível.

Claro que o estudo, a prática e a nossa experiência clínica nos ajudam a ter uma ideia de quando os psicofármacos são ou não indicados. Mas a questão é: não somos nós que decidimos isso. Esse não deve ser o nosso foco. Então se essa dúvida surgiu para você, se você já se perguntou se esse paciente poderia se beneficiar ou não de um medicamento, encaminhe para uma avaliação especializada. 

Percebo que existem psicólogos que esperam até a última para encaminhar, para que o “paciente não seja medicado a toa”. Mas gente, encaminhar para o psiquiatra não é sinônimo de que o paciente será medicado. Significa que ele passará por uma avaliação especializada em relação a isso. Então encaminhe.

Se você tem ressalvas em relação aos psiquiatras ou teme que a conduta não seja compatível ou coerente com a sua abordagem da terapia, o que você precisa fazer é encontrar profissionais que tenham uma prática alinhada com a sua. Você precisa ir atrás para conhecer melhor outros profissionais, tentar firmar parcerias.

Seus pacientes ganharão muito com isso.

4. Qual a sua experiência e avaliação pessoal sobre psiquiatria e psicofármacos?

Somos influenciados pela nossa história de vida e experiências pessoais ou familiares negativas podem comprometer a avaliação da situação atual.

Por isso, precisamos estar atentos ao impacto disso na prática clínica.

Caso tenha dúvidas em relação ao encaminhamento em algum caso específico, busque supervisão.

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Psi. Maria Emília

Psi. Maria Emília

Psicóloga graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestalt-terapia pelo Comunidade Gestáltica. Especialista em Saúde pela Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (Alta Complexidade HU/UFSC). Mestrado Profissional pela UFSC. Atua como psicóloga hospitalar e clínica.  Além de professora, preceptora de Residência e supervisora de estagiários e psicólogos já formados.​
Psi. Maria Emília

Psi. Maria Emília

Psicóloga graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Gestalt-terapia pelo Comunidade Gestáltica. Especialista em Saúde pela Residência Integrada Multiprofissional em Saúde (Alta Complexidade HU/UFSC). Mestrado Profissional pela UFSC. Atua como psicóloga hospitalar e clínica.  Além de professora, preceptora de Residência e supervisora de estagiários e psicólogos já formados.​

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